sábado, 28 de outubro de 2017

A MULHER PERFEITA


Eu mesmo nunca fui bom em responder a essa pergunta. Sempre a considerei um exemplo de racionalidade mal aplicada. De que adianta concluir que eu gosto de loiras com alma de escritora se eu vou acabar envolvido com uma morena com corpo de passista? A vida é implacável com as nossas convicções. E morre de rir das nossas certezas Quando eu penso na mulher ideal, o primeiro adjetivo que me vem à mente é afetuosa. Aprendi, com o passar dos anos, que gosto de ter ao meu redor gente que se vincula e que demonstra carinho, sem ser chata. Racionalidade e distanciamento são virtudes importantes, mas elas não me comovem. Eu gosto de mulher doce. Outra coisa da qual eu gosto é elegância, entendida como um jeito de se relacionar com o mundo e com as pessoas. Não se trata apenas de roupas. A elegância de que eu falo começa no jeito de andar, mas se expressa, sobretudo, em atitudes e palavras. É uma mistura de harmonia, altivez e senso de humor. Eu me incomodo cada vez mais com grossura e vulgaridade. Tolerância é fundamental. Todo mundo que tem algum conhecimento sobre si mesmo sabe que seres humanos são falíveis e contraditórios. É preciso apreciar a diversidade dos comportamentos e olhar para os demais com generosa ironia. Mulheres bravas, que só recriminam as pessoas em volta, me trazem más recordações. Eu gosto de gente rebelde. Não precisa ser a Rosa de Luxemburgo, mas alguma dose de indignação e engajamento é essencial. Pessoas que não percebem as injustiças ou não se incomodam com elas me incomodam. Gente que só olha para a própria barriga também não me vai. A mulher ideal tem de ser cúmplice quando o sujeito estiver exasperado com o andamento do mundo. Olhando para trás, percebo que eu aprecio a originalidade. Não gosto de mulher igual às outras mulheres, por mais bonita que seja. Quem se confunde com o bando não me atrai. As pessoas têm de ter luz própria, personalidade, estilo. Defeitos, talvez. É isso que as torna interessantes e, às vezes, indispensáveis – onde você vai arrumar outra mulher como aquela se ela é única? Por fim, eu admiro as mulheres leves. Não, não se trata de magreza. É um jeito de olhar para a vida sem mágoas, com curiosidade e interesse. É a facilidade de rir e de se surpreender, de ficar feliz. O oposto disso é a mulher amarga, rancorosa, mal humorada. Isso afasta. Haveria outras coisas a acrescentar ao perfil da Mulher Ideal: inteligência, independência e até mesmo, como diria Vinícius de Moraes, uma indefinível e ocasional melancolia. Mas o que temos na lista é suficiente para marcar o meu ponto de vista e me covencer... que eu encontrei minha Mulher perfeita.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

TRANSGÊNERO


Você é aquilo que você acredita ser. O problema é que muita gente desocupada levou a sério demais essa frase pronta da autoajuda. E acabamos chegando nessa baboseira de “identidade de gênero”, que diz que ninguém nasce homem ou mulher, que não existe determinismo biológico algum, e que todos somos aquilo que desejamos ou que acreditamos ser. Daí para o “transracialismo” era uma questão de tempo – e lógica. Portanto, ninguém mais é branco ou negro, pois um branco pode “se sentir” negro e vice-versa. Há uma senadora americana de extrema-esquerda que jura ser índio, por exemplo, e Trump a chama de “Pocahontas”, com fortes pitadas de ironia. O único resquício indígena na moça é o branco dos olhos. No restante, ela é exatamente como os demais da “raça” branca. Houve, também, um caso polêmico em que uma ativista americana se dizia negra, e acabaram descobrindo que ela era branquinha da Silva. Foi o caos, ela acabou sendo acusada de fraude, de oportunismo. Mas eis que uma acadêmica surgiu em sua defesa, e defendeu a “tese” de que o transracialismo é a consequência natural da “ideologia de gênero”, ou seja, somos aquilo que acreditamos ser, não importa o que diz a biologia. Não sei a resposta. Há cada vez mais gente desocupada lotando as universidades, precisando justificar verbas milionárias com suas “pesquisas”. E sabemos que uma elite mimada é um prato cheio para ideias bizarras. O socialismo foi parido assim, vamos lembrar, nunca no chão de uma fábrica. Se em 1984 o herói de George Orwell repetia para si mesmo que dois mais dois é igual a quatro, para provar sua sanidade diante de um mundo enlouquecido, hoje em dia precisamos repetir – em voz baixa – que meninos são meninos e meninas são meninas. Ao menos assim preservamos a nossa sanidade mental, mesmo que o vizinho fale em “meninx” com a maior naturalidade enquanto degusta seu vinho…